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História

O mito do Império

Hoje em dia, a ideia de que Portugal foi um império colonial benigno, diferente dos seus semelhantes europeus, que tratava as suas colónias como províncias e os nativos como portugueses, é muito comum, e útil à direita nacionalista portuguesa. Até o cidadão comum integrou na sua mente a ideia que o povo português é um povo tolerante, e que aceita a diversidade.

Não nego que o português comum, retirando os demasiados casos de racismo crónico, tenta ser tolerante, e também não nego que os exploradores, navegadores e colonos portugueses individualmente, no tempo do império colonial, pudessem ser melhores que os colonos ingleses ou franceses. Mas o colonialismo português não foi melhor que qualquer outro tipo de colonialismo. Isto deve-se ao conceito de colonialismo em si. O objetivo do colonialismo e da criação de colónias é, normalmente, a extração de lucro, o aumento do prestígio do colonizador e a integração da área colonizada na cultura da pátria mãe(mais do mesmo). Disto resulta a exploração económica dos nativos e a sua aniquilação cultural, além da sua submissão politica e do esmagamento da sua resistência militar. Portanto, embora aceitando que havia indivíduos que aceitassem e fossem tolerantes com os nativos, e que os quisessem ajudar, as forças que lideravam o colonialismo, isto é, o Estado e Colonialismo, não eram melhor a falar a língua de Camões, a de Miguel Cervantes ou a de Shakespeare.

Com este esclarecimento, agora acredito que é importante mostrar e clarificar alguns dos acontecimentos e factos que vão contra a ideia comum, e que o Império Português era de alguma forma tolerante e benéfico para com os nativos e para com os povos das terras que “descobria” ou colonizava:

Massacre dos navios árabes em Calecut, e o seu primeiro bombardeamento

Aquando da expedição de Cabral à Índia, quando as negociações começaram a falhar entre os portugueses e o Samurim, com isso, Cabral ordenou a captura de 10 navios árabes e ordenou a morte de todos os tripulantes, cerca de seiscentos muçulmanos. No dia seguinte, ordenou o bombardeamento da cidade. (1)

Massacre do Miri, Setembro de 1502.

O massacre do Miri é assim descrito pelo site Nova Portugalidade, um dos mais acérrimos defensores da ideia do império colonial benigno, “O caso do navio árabe “Miri” (em persa, “Comandante”, “Governador”), atribuído por Gaspar Correia e grande número de outras fontes a Vasco da Gama, é especialmente chocante. Tratava-se de grande navio muçulmano. Transportava coisa de trezentas pessoas de todas as condições, assim como rica carga, e devia dirigir-se a Meca ou ao Egipto quando Vasco da Gama o localizou e atacou. O navio rendeu-se prontamente e terá oferecido farto resgate a Gama. Este recusou-o repetidamente, mesmo quando as ofertas muçulmanas se tornaram desmedidamente generosas; depois, abandonou o Miri, a que fora para negociar, e ordenou que se fizesse fogo sobre a nave. A tripulação daquela pôde controlar os muitos fogos que nela deflagraram, seguindo-se depois batalha de vários dias. O Miri resistiu até ao limite das suas forças acabando por afundar-se apenas após terrível perseguição.” (2)

A descrição do massacre na obra “Conquerors”, de Roger Crowley é ainda maior e mais chocante, mas não cabe neste artigo. Basta dizer que foi um massacre gratuito, causado apenas pela vontade de Vasco da Gama de retaliar contra os seus inimigos na Índia. (3)

Massacre dos mercadores muçulmanos, 31 de Dezembro de 1504

Com a violência contra os muçulmanos por parte dos portugueses no auge, e com a ruína económica ameaçando os comerciantes árabes no Oceano Índico, estes, com as suas famílias, os seus bens e as suas mercadorias, decidiram fugir para a Arábia. No ultimo dia do ano, o comboio naval que os transportava foi intercetado por uma esquadra naval portuguesa, que o destruiu e matou potencialmente 2,000 muçulmanos. (4)

Massacre de Dabul, 29 de Dezembro 1508

O massacre de Dabul foi um massacre retaliatório à cidade de Dabul, agora Dahbol, em consequência do ataque dos navios desta cidade à expedição. Francisco de Almeida ordenou o bombardeamento da cidade e um ataque terrestre em pinça. Os soldados mataram todos os habitantes da cidade, não poupando nada, nem idosos, mulheres, crianças ou animais, e depois ordenou o incêndio da cidade, destruindo-a completamente. (5)

Massacre de Goa, 25 de Novembro 1510

Após a perda inicial de Goa por Afonso de Albuquerque, este atacou-a outra vez, para a conquistar e para purgar definitivamente a presença muçulmana na cidade. Para isto, durante e após a conquista da cidade, ordenou a morte de todos os muçulmanos, que totalizou um número de mortos de cerca de 6 mil. Para isto, entre outras estratégias, levou os muçulmanos até as mesquitas e incendiou-as. (6)

Comércio de escravos transatlântico e uso de Escravos

Embora a escravatura tenha existido desde o império romano, e que o comércio de escravos transatlântico fosse o primeiro sistema de tráfico de escravos em larga escala, Portugal inegavelmente criou o comércio de escravos transatlântico. Portugal também foi o país que mais escravos traficou, (mais de 4 milhões) e que o fez até mais tarde. E, não obstante as medidas oficiais de abolição da escravatura no papel, a escravatura nas colonias, nas suas variadas formas, como trabalho forçado ou trabalho para pagar impostos, durou até 1961. Muitas destas formas eram camufladas para não serem sancionadas como escravatura, mas eram tão execráveis e desumanas como a escravatura normal dos séculos XV a XIX. (7)

Angola (8)

1822

Início da exploração e colonização efetiva do interior angolano.

1875

Instituição do regime de trabalho obrigatório (continuação da escravatura).

1885

Expedições de “pacificação” de várias etnias que não se submeteram ao domínio português.

1907/1918

Campanhas militares de “pacificação” dos Dembos.

1930-1939

A nascente industrialização e desenvolvimento da colónia é alimentada por trabalho braçal semiescravo.

1940

Campanha militar de “pacificação”.

1961

Janeiro – Greve dos trabalhadores de algodão da Baixa do Cassange é duramente reprimida, resultando num largo número de mortes.

Fevereiro – Em resposta a ataques por parte do MPLA a edifícios governamentais, os colonos brancos procedem a uma chacina dos muceques (bairros de lata dos nativos).

Moçambique (9)

1550

Ataque às tribos do Zambeze para a conquista das suas terras e dos terrenos auríferos.

1878

Entrega do controlo efetivo do norte da colónia a companhias majestáticas, na sua maioria inglesas, que utilizam trabalho forçado para construir herdades, estradas e vias férreas.

1897

“Pacificação” efetiva na região de Gaza.

1899 a 1900s

Fim efetivo do tráfico de escravos.

1904/1906 e 1912/1913

Campanhas de pacificação no norte.

1915

Finalmente, Portugal controla a totalidade do território moçambicano, situação que apenas durará 3 anos. Três grandes corporações controlam de facto a economia colonial, tendo o poder de recrutar à força trabalhadores para as plantações. Cerca de 100 mil moçambicanos são forçados a ir trabalhar para as minas de ouro de Transval, na África do Sul.

1932

Criação de um sistema racista inspirado no Apartheid sul-africano, com a proibição de frequentar a escola e de possuir negócios por parte dos africanos, que na maior parte fazem trabalho forçado nas minas, nas “farmas” e nas plantações de Algodão. Apenas aqueles que conseguem provar que usam sapatos, comem com faca e garfo e que não dormiam no chão podiam ser “assimilados” e receber teoricamente educação básica.

1959-1960

Cooperativas de agricultores no Cabo Delgado são desmanteladas e os seus dirigentes presos.

1/6/1960

500 manifestantes são mortos no “massacre de Mueda”.

1961

O trabalho forçado é finalmente abolido.

1973

O massacre perpetrado por tropas portuguesas na aldeia de Wyryamu é denunciado pelo Prade inglês Adrian Hastings.

Guiné Bissau (10)

1871 a 1914

Enfrentando sublevações por parte dos nativos, os portugueses lançam várias campanhas para ocuparem efetivamente os territórios da Guiné Bissau.

1959

Estivadores grevistas do porto de Bissau são abatidos pelas autoridades portuguesas naquele que fica conhecido como “massacre de Pidjiguiti”.

Cabo Verde (11)

1963

Embora não haja guerra de libertação no arquipélago, muitos cabo-verdianos passam a combater nas matas e bolanhas da Guiné Bissau integrados na guerrilha do PAIGC.

São Tomé e Príncipe (12)

1595

Revolta de escravos liderada por Amador, que se autoproclama rei. É enforcado e esquartejado pelos colonos.

1909

O sistema de trabalho forçado “contratados”, que tinha começado em 1869, nas roças de cacau causa um boicote do cacau de São Tomé e Príncipe por parte das companhias inglesas.

1953

O massacre de Batepá, com 1053 (estimadas), ordenado pelo governador Gorgulho aquando da sua tentativa para desenvolver a ilha com o recurso a trabalho forçado.

1966

A PIDE prende 17 são-tomenses em Lisboa.

Os acontecimentos acima mencionados são apenas uma pequena parte dos vários massacres e guerras que os portugueses perpetuaram nas suas colónias.

Agora podemos tomar duas posições sobre estes atos. Ou coletivamente, como povo, declaramos que a culpa pela perpetuação desses atos é nossa, e tomamos as ações consequentes de aceitarmos o nosso passado, com tudo o que dai advém, ou negamos a nossa responsabilidade nestes massacres. Mas, se nos recusarmos a ser responsáveis por estes horrendos atos, que legitimidade temos para nos proclamar herdeiros dos bravos e intrépidos navegadores e dos seus atos, recusamo-nos também aceitar-nos como herdeiros dos perpetuadores destes crimes horrendos?

Wiki

Fontes (consultadas a 25/05/2020)

(A edição do “Conquerors” usada é uma versão em inglês e em formato livro de bolso. As páginas aqui indicadas podem não ser as mesmas na versão do leitor. Para quem tiver duvidas, por favor contacte-nos pelo nosso email ondavermelha48@gmail.com)

(1) “Conquerors”, Roger Crowley, pág. 111

(2) http://novaportugalidade.pt/sobre-a-suposta-brutalidade-dos-portugueses-no-indico/

(3) “Conquerors”, Roger Crowley, pág. 123-128

(4) “Conquerors”, Roger Crowley, pág. 150

(5) “Conquerors”, Roger Crowley, pág. 225-227

(6) “Conquerors”, Roger Crowley, pág. 285 e 286

(7) https://www.cmjornal.pt/mais-cm/domingo/detalhe/pioneiros-na-escravatura

(8) África 30 Depois, pág 64-67

(9) África 30 Depois, pág 128-131

(10) África 30 Depois, pág 160-163

(11) África 30 Depois, pág 198-200

(12) África 30 Depois, pág 232-235

Por Onda Vermelha

¡Olá a todos! Daqui falam os criadores desta revista "Wiki" e "Revolat", que somos ambos estudantes. Esta revista, tem por base a partilha de alguns ensinamentos e lições essenciais , e de como podemos melhorar não só esta nação como também este mundo!

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